Cicloturismo de Outono nas Ecopistas do Vouga e do Dão

Numa conversa de café depois do verão, a Ana mostrou vontade em fazer uma pequena viagem de bicicleta em autonomia, aproveitando um fim-de-semana mais longo e o nosso clima, cada vez menos chuvoso e menos frio.

cicloturismo-outono-2016-dia-1-aveiro-s-pedro-do-sul-138

Com o feriado de 1 de Novembro a calhar numa terça-feira, estava decidida a data, que nos proporcionaria uma viagem de cicloturismo de 4 dias pelo nosso bonito Portugal.

Faltava decidir o local, mas como ela não conhecia a Ecopista do Dão, entre Viseu e Santa Comba Dão, um dos lugares mais bonitos e agradáveis para pedalar em Portugal, apontámos o mapa para essa região. Com 4 dias para preencher, acrescentámos a Ecopista do Vouga que acompanha o rio desse nome, entre Sernada do Vouga e Viseu, numa zona montanhosa, onde o caminho da antiga linha ferroviária serpenteia pelas encostas, fura por túneis e salta por pontes os declives, percorrendo todo o percurso numa fácil e quase plana progressão.

O planeamento da viagem resumiu-se a uma breve escolha de percursos por estradas nacionais e municipais com pouco movimento, que fizessem a ligação às ecopistas. O alojamento ficava em aberto e seria decidido no momento. Levávamos equipamento de campismo e sabíamos onde havia Pousadas da Juventude.

Primeiro Dia

No Sábado, dia 29 de Outubro, saímos de Lisboa às 7h39, no comboio InterCidades em direção a Aveiro. Duas horas depois já estávamos a tomar um segundo pequeno almoço na Avenida Lourenço Peixinho. Da esplanada apreciávamos um desfile tímido de idosos a pedalar nas suas bibicletas, carregando sacos da passagem pelo mercado. De certeza que estes seniores vão poucas vezes à farmácia buscar medicamentos comparticipados e são mais felizes por continuarem a usar a bicicleta. Ganhamos todos.

Mesmo assim, Aveiro também sofre do excesso de carros e nos primeiros quilómetros sente-se o ar mais pesado das décadas de planeamento urbano desperdiçadas em (i)mobilidade exclusivamente automóvel. Mas não foi preciso pedalar muito em direção ao interior, mais rural, para começar a apreciar o silêncio e ar puro das estradas quase sem carros.

O nosso objectivo era descobrir o início da Ecopista do Vouga, perto de Sernada do Vouga. Sabíamos que apenas uma pequena parte desta ecopista está pavimentada com piso betuminoso – 11 kms dum confortável pedalar. Os restantes 67 kms são em piso de terra, gravilha e pedras. Como é habitual, estas ecopistas não têm qualquer sinalização da sua localização a partir da estrada – não vão as pessoas começar a usá-las e deixarem de depender tanto do negócio dos carros, dos combustíveis e das farmácias… Mas graças à curiosidade, à sorte e à tecnologia dos mapas dos smartphones, lá conseguimos encontrar o início da “ecopista pavimentada”, junto à Foz do Rio Mau.

A partir daí, parece que entramos num maravilhoso mundo novo. Quase como um “portal” para outra dimensão, como naqueles filmes de ficção, onde depois duma passagem escondida, descobrimos um paraíso a transbordar de vida e beleza, poupada dos excessos da (in)civilização.

Parámos para almoçar na Paradela, onde a antiga estação foi convertida num simpático espaço com restaurante, esplanada e outros serviços de apoio à ecopista. Restabelecidos com uma bela salada, continuámos a pedalar, inebriados pela beleza à nossa volta e com a satisfação de estarmos a apreciar isto tudo e a percorrer tamanhas distâncias, sem estragar o objecto da nossa contemplação. De manhã estávamos em Lisboa e uma horas depois já ali nos encontrávamos, graças à eficiência e polivalência que só a bicicleta permite.

Parámos novamente, desta vez para falar com uma senhora que caminhava, à procura de cogumelos. Falámos do seu interesse por estes fungos, partilhou receitas e contou-nos um pouco da sua vida profissional e familiar.

Cedrim marca o fim do betuminoso e impunha-se decisão de seguir pela estrada nacional ou continuar pela ecopista? Optámos por continuar na ecopista, pois o piso em terra não era demasiado desconfortável e íamos descontraidamente devagar. Mas de vez em quando, para evitar troços mais acidentados, fazíamo-nos à EN16, confortável e quase sem tráfego automóvel, mesmo ali ao lado.

Neste primeiro dia continuámos até São Pedro do Sul. Não tínhamos nada marcado, mas sabíamos que havia uma Pousada da Juventude. E a 12€ por pessoa, num quarto com WC e pequeno almoço incluído, a tenda que trazia nos alforges lá iria continuar guardada nessa primeira noite.

Segundo Dia

No segundo dia continuámos a seguir a Ecopista do Vouga, em direção a Viseu, com as suas muitas pontes e túneis. Depois dum primeiro dia de cicloturismo perfeito, continuávamos na rotação máxima da satisfação, sem sinais de abrandamento. Excepto nas constantes paragens para tirar fotografias e contemplar a paisagem. De vez em quando fazíamos um desvio para o suave piso da estrada nacional, praticamente sem carros, quando o piso da ecopista apresentava demasiadas irregularidades.

Já às portas de Viseu, perdemos o rasto da ecopista e seguimos a recomendação dum ciclista que encontrámos no caminho, de seguir pela estrada nacional (N16). Com duas vias de trânsito em cada sentido, podíamos circular a par descontraidamente pela via da direita.

Almoçámos no centro de Viseu e abastecemos de comida num mini-mercado de rua, a pensar na ceia para o final do dia. O plano era fazermo-nos à Ecopista do Dão, encontrar um local para montar a tenda a meio do caminho, antes do sol se esconder, e comermos as iguarias adquiridas, acompanhado por uma garrafa de vinho tinto que trazíamos nos alforges, do jantar da noite anterior.

Escusado será repetir que o início da Ecopista do Dão não tem qualquer placa que incentive as pessoas a descobri-la. Tem 49 kms e liga Viseu a Santa Comba Dão, através do antigo caminho ferroviário deste nome. Todo o percurso está confortavelmente betuminado, com a particularidade de cada município ser demarcado por uma cor. Em Viseu o tapete é Vermelho, passando a Verde no concelho de Tondela e acabando em Azul no município de Santa Comba Dão. É considerada a melhor ecopista do país e rapidamente se percebe porquê, como as imagens comprovam.

Quando planeamos uma noite de “campismo selvagem” instala-se uma adrenalina em forma de ligeira ansiedade, com a incerteza de encontrar um bom local, na hora certa. Vamos pedalando pela ecopista, mas já começamos a olhar possíveis saídas que possam culminar nesse local. Não consigo explicar bem porquê, mas a verdade é que nestas situações acho sempre que tudo vai correr bem, o que mais uma vez acabou por se confirmar. Por volta do km 20, decidimos seguir um dos caminhos agrícolas que dão acesso a campos de cultivo. Rapidamente encontrámos uma clareira isolada e perfeita para montar a tenda, aproveitando ainda a luz do final da tarde para jantarmos.

Terceiro Dia

Começar o dia a pedalar na confortável Ecopista do Dão, a apreciar as paisagens naturais e os campos agrícolas, sem o desconforto gerado pelos automóveis, é um grande e longo “momento zen”, que já ia no seu terceiro dia consecutivo.

Procurámos a primeira localidade onde pudéssemos tomar o pequeno-almoço. Perguntámos a um senhor que cuidava do seu jardim e que nos recomendou Canas de Santa Maria, 2 kms mais à frente. Típico café, igual a tantos outros, com uma TV ligada nos programas da manhã, sempre a sortear carros, acompanhados de comprimidos para compensar os efeitos do sedentarismo e notícias chocantes para prender os telespectadores em frente ao ecrã. Na rua, as crianças do jardim infantil desfilavam com as vestes do Dia das Bruxas, assustando pouco e cativando mais.

Voltámos à Ecopista. Encontramos um pastor com o seu rebanho de ovelhas e os seus dois enormes e simpáticos cães, que logo nos vieram exigir “festas”. Passámos por uma antiga igreja românica, um dos raros edificados sinalizados no percurso.

Mais 20 kms a pedalar por estas paisagens. O Rio Dão começava a chegar mais perto da Ecopista. A determinada altura, somos atraídos por uma paisagem verdejante e extensa. Saímos da ecopista e descemos por um caminho de terra. Por onde o rio já passou em tempos, com um caudal mais elevado, existe agora um extenso tapete relvado, verde e perfeito, sem ninguém para o aparar ou regar. Um imenso anfiteatro que parece um cenário dum filme jurássico. Ficámos ali a contemplar aquele quadro, que ainda hoje nos conforta, só de nele pensar.

Antes de chegarmos ao fim da ecopista, decidimos cortar à direita por um dos caminhos de terra, explorando uma alternativa para chegar a Santa Comba Dão, sem ter que fazer a ponte por onde passa a IP2, com um perfil de “quase auto-estrada”. Em vez duma saída fácil, encontrámos um caminho acidentado, com uma bela subidas dignas dum percurso de BTT. Mas nada que não encarássemos com um espírito aventureiro e positivo. Sabíamos que eram só uns poucos kms até encontrarmos uma estrada asfaltada.

Almoçámos em Santa Comba Dão e apontámos o GPS do smartphone para Coimbra, seguindo por estradas que acompanham o Rio Mondego. Tirando pequenos troços que passam pela IP3 (que deveriam ser alvo da criação de alternativas), o trajeto é agradável, com estradas municipais sem carros e sem grandes declives, junto às margens do Mondego, seguido duma parte pela EN2 e depois pela EN110, que serpenteia pelo vale em direção a Coimbra.

Chegámos a Coimbra já de noite. A hora mudou e roubou-nos uma hora ao final da tarde. Felizmente as nossas bicicletas têm boas luzes, alimentadas por dínamos de cubo. Mais uma vez o plano era encontrar a Pousada da Juventude. Mal sabíamos que ficava no cimo de várias subidas. Depois de três dias “zen”, lá tivemos que levar com o habitual excesso de carros que estragam as nossas cidades. Apesar de lhe ter custado um pouco, ainda para mais ao final de 3 dias a pedalar e já com 80 kms nas pernas, a um bom ritmo naquele dia, a Ana superou sozinha aqueles últimos 4 kms, sempre a subir.

Bicicletas guardadas no interior de mais uma Pousada da Juventude, com apenas 25% da lotação, tomámos um duche e fomos jantar num restaurante na Praça da República.

Quarto Dia

Um dia tranquilo, onde aproveitámos a manhã para explorar de bicicleta o polo universitário de Coimbra, o centro histórico e a renovada frente ribeirinha. Poucas alternativas para almoçar junto ao rio, mas gostámos da esplanada do Restaurante Itália, bem integrado no parque com as suas generosas árvores e uma bela vista para o Rio Mondego, a aproveitar ao máximo aquele verão de Outono, no primeiro dia de Novembro.

Durante o almoço, usámos o smartphone para comprar os bilhetes do InterCidades que nos levaria às 15 horas e picos confortavelmente de regresso a Lisboa.

Estava concluída uma viagem de 4 dias, sem reservas de acomodações nem planos rigorosos, mas onde tudo correu na perfeição do improviso. Viajar é fácil e em Portugal é uma brincadeira de crianças.

Mesmo assim, temos um longo caminho a percorrer, para nos aproximarmos dos níveis de turismo activo de outros países europeus, onde se investe muito mais em redes de vias cicláveis seguras e sinalização que incentive o seu uso, por parte da população residente e turistas. São investimentos com elevados níveis de retorno, pois conseguem combater de forma eficiente os graves problemas das alterações climáticas e da saúde pública, bem como dinamizar o turismo alternativo e as economias locais.

Percursos registados no Strava:


Alguns links úteis:

  • http://www.ecovias.pt/ – Roteiros turísticos digitais com percursos  para percorrer na sua bicicleta. Incluem mapas detalhados, informação técnica e turística, fotos, trilhos GPS e muito mais.
  • http://www.ciclovia.pt/ – Rede actualizada das actuais e futuras Ciclovias, Ecovias, Ecopistas e Percursos Cicloturísticos em Portugal, com bastante informação sobre cada uma.
  • http://euroveloportugal.com/ – percurso português da EuroVelo 1- Rota da Costa Atlântica, pertencente à rede Europeia de Ciclovias que inclui actualmente 15 rotas cicláveis de longa distância que cruzam o continente Europeu.
Anúncios